Vindo da glória


redação

Gloriosamente, o rei envolto em mantos grisalhos coloca o pé no salão rústico. Na frente dele, na longa e reta mesa coberta por uma toalha que alcançava o feito de, sozinha, ornamentar toda a mesa. Dezenas de nobres em trajes finos esperavam a vinda do recém-chegado rei. As suas vozes emitiam palavras que, aos montes, eram inteligíveis, e ecoavam pelo salão iluminado por tochas e candelabros.

Totalmente calado, franzindo a testa, o rei cuja as marcas de estresse se evidenciavam no rosto senta-se no trono, na ponta da mesa. A áurea opressora que emancipava ia se espalhando pouco a pouco, conforme os fidalgos se davam conta de que o seu senhor estava presente. De olhos arregalados, eles pareciam se sentir formigas, quando comparados ao lobo que era o rei.

Quando as vozes cessam e todos, envergonhados e sem jeito, encaram os talheres e pratos vazios de prata, o rei propõe para que, enfim, comam. Alguns assentem, enquanto outros concordam com palavras, e os serviçais entram no salão com bandejas repletas de carnes e saladas muito bem organizadas – a nobreza estava clara nos alimentos.

O tempo passa e, ao longo de conversas curtas e abafadas e o silêncio do rei, a janta por fim acaba. Curvando-se e cumprimentando “Sua Majestade Real”, os nobres saem do salão pouco a pouco, deixando para trás, na quietude absoluta, o rei. Ele espera pacientemente para que todos se retirem – o que não demora muito – enquanto permanece encarando o teto de madeira e a lareira de pedras paralelepípedas. Da lareira a paixão flamejante do fogo se contraía e uivava. Eventualmente, o rei fica sozinho no enorme salão, enojado.

Uma longa semana se passa e, de acordo com o conselho de seus magistrados, o rei anfitria mais uma janta, novamente com o intuito político de reunir e aproximar os nobres do reino, em prol do povo que governava.

Enquanto a música dos tambores e violinos eram reproduzidas, os fidalgos sentam-se nas cadeiras que rangiam. O rei, como de costume, entra no salão majestosamente enquanto sua capa cobre o seu corpo alto e magro.

Sentado, de costas eretas e coladas no escoro, o rei se dá conta de que não havia nem vinte nobres no salão dessa vez; ademais, ninguém conversava, e apenas coravam ao som do violino enquanto fitavam os seus pratos. Fulo, o rei bufa.

A janta procede, tensa como o usual, e quando todos se despedem friamente, e ainda assim submissamente, do rei, os músicos também dão o seu adeus. Na imensidão do salão, silêncio imperava. Novamente sozinho, fitando as chamas se dissiparem enquanto permanecia parado em frente a eles, ele ouve o som de passos apressados no chão de carvalho. Tornando-se para o originador dos passos, ele vê o seu fiel conselheiro, vestindo túnica cinza e portando a típica cabeça calva. Assim, o servo real fica de joelhos perante o seu rei.

De voz e corpo trêmulos, o conselheiro notifica, informação por informação, o que viria a ser o descontentamento do rei. Conforme as palavras saíam dos seus lábios descascados, mais o rei era consumido pelo desamparo de seu aparente fracasso.

De acordo com o relato do conselheiro, que agora estava a se erguer, os nobres expressaram decepções com o futuro político e econômico do reino, baseado nas decisões recentes do rei. A falta de visão e carisma do governador estava afetando até mesmo os seus mais próximos aliados políticos e parceiros econômicos – nem o povo estava contente. Tudo estava desabando.

As ordens do rei foram claras: com braços abertos, uma nova janta deveria ser organizada, esta com o intuito de apaziguar as classes sociais diversas e insatisfeitas. Assim, uma janta de esclarecimentos e irmandade. Vendo que o colapso estava próximo, o rei esperou uma semana e meia com o coração na mão. Suas atitudes negligentes estavam dividindo o reino, e poucos apoiadores restavam.

De noite, na cama, engarrafado na insônia e no mais extremo pesar mental, o rei realizou que o fim estava quase se tornando realidade.

Após noites onde ficou inquieto, e tardes onde andou em círculos, o fatídico dia chegou. Certo tempo antes do horário marcado, o rei já sentava sobre o seu trono de costas curvas e distantes do escoro. Quase conquistado pelo sono, piscando os olhos continuamente, ele espera. Com os dedos enrugados, batia a palma da mão levemente no braço do assento. O tempo passou, sua teia contornando o intelecto já decaído do rei. Ele perdia a noção do mundo ao seu redor, resistindo ao cansaço.

A chama da lareira não estava acesa e, assim, não emitia chiado algum. Do mesmo modo, não havia um músico sequer. Envergonhado, uma lágrima salgada escorreu de seu olho esquerdo, deixando um rastro pela bochecha.

Ele havia fracassado miseravelmente, caindo longe da prosperidade. Se as coisas tivessem sido diferentes… Genuinamente, o rei desejou ter sido um fazendeiro, um lenhador ou um alfaiate – qualquer coisa menos um governante.

Sua alma queimou quando ele jogou-se do pináculo para o fosso, para a morte, temendo por ter feito o mesmo com o seu reino que agora era instável.

Texto produzido pelo aluno Paulo de Ávila, turma 311, na oficina #Redação.