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O VOCÊ NO PARADIGMA PRONOMINAL DO PORTUGUÊS BRASILEIRO

Professora Priscila Frota Severo –  Português/ Ensino Fundamental

Para que possamos entender um pouco melhor nossa língua e compreender o estágio atual em que ela se encontra, devemos deixar de lado o senso comum, buscando novas possibilidades e questionando fatores que já podem até estar internalizados – como aquela história que conforta muitos, de que o português criou-se a partir do latim, e que deve ser no mínimo aprimorada.

Mas agora, o que interessa não é isso, e nem mesmo como se deu a evolução do Português Brasileiro, mas saber que sim, a língua continuará evoluindo como tudo ao nosso redor, é decididamente impossível que continuemos a pensar que estaremos falando da mesma forma daqui a vinte ou trinta anos. A língua é viva, assim como seus falantes.

Nós, brasileiros, afundados em regras gramaticais devemos nos desprender desse monitoramento forçado ao uso correto dos pronomes oblíquos ou de qualquer outra regra fundada capaz de menosprezar aquele falante que se comunique fora da norma culta. Essa questão de colocação pronominal foge à língua, é um fator sociocultural imposto a nós como adequada, tudo isso foi exportado junto com os Portugueses, pois para eles ela encaixa perfeitamente-não para nós. É como se construísse primeiro a gramática, e então: Agora falem como ela descreve a língua.

O que não entendo é por que a colocação pronominal vem ocupando os estudos há mais de cento e cinquenta anos- sendo provada sua diferenciação contrapondo com a gramática- e mesmo assim insistimos em algo que, na realidade, é outra?

O uso do tu e do você também faz parte dessa discussão. Todos sabemos que a maioria dos gaúchos usa o tu com o verbo na terceira pessoa, outros usam o você com os pronomes oblíquos de segunda pessoa. Usam também os possessivos de segunda pessoa associados ao você.

No que diz respeito à questão de pesquisa, que era investigar a alternância entre tu e você na posição de sujeito em cartas redigidas por alunos matriculados no curso “Como pontuar um texto”? do Projeto Social Lavili – Laboratório de Vivências em Linguagem, da Universidade Feevale, verifica-se que, em 19 das 61 cartas, o que equivale a 31,2%, os emissores utilizaram sujeitos nulos ou indicaram os nomes de seus destinatários, isto é, não utilizaram nem uma vez um pronome; em 36 delas, 59%, foi utilizado o pronome você; em 4 cartas, 6,5%, houve alternância no uso entre tu e você, isto é, os emissores utilizaram os pronomes tu e você de forma alternada na mesma carta e, em apenas duas cartas, 3,3%, foi utilizado apenas o pronome tu, como pode ser visualizado no Gráfico 1 que segue.

Gráfico 1: Ocupação da posição de sujeito

grafico

Fonte: elaborado pela pesquisadora

Sendo assim, acredita-se que os resultados evidenciam a formação de um “novo” paradigma pronominal esteja se cristalizando, o qual contempla o você ao lado tu como pronome pessoal reto de segunda do singular como propõem Neves (2000), Castilhos (2010) e Perini (2010).

A maioria dos livros didáticos prende-se na apresentação do quadro pronominal da gramática normativa, entretanto, a editora Positivo, qual utilizamos na Escola de Ensino Médio São Mateus, apresenta um quadro pronominal que acompanha as evoluções da língua, segue tabela 1:

Tabela 1: Quadro Pronominal- Positivo

Pessoas do discurso Pronomes Pessoais de Caso Reto Pronomes Pessoais de Caso Oblíquo
1ª do singular Eu Me, mim, comigo
2ª do singular Tu, você Te, ti, contigo, consigo, se
3ª do singular Ele, ela Se, si, consigo, o, a , lhe
1ª do plural Nós, a gente Nós, conosco, com a gente
2ª do plural Vós, vocês Vós, convosco, com vocês
3ª do plural Eles, elas Se, si, consigo, os, as, lhes

Fonte: Positivo (2012)

REFERÊNCIAS

NEVES, Maria Helena de Moura. Gramática de usos do português. São Paulo: Editora UNESP, p. 449-470, 2000.

CASTILHO, Ataliba T. de. Nova Gramática do português brasileiro/ Ataliba T. de Castilho.- São Paulo: Contexto, p. 472-480, 2010.

PERINI, M. A. Gramática do Português Brasileiro. São Paulo: Parábola, 2010.

SOARES. Rosalina Mariana Rathlew. Língua Portuguesa: 9° ano. Curitiba: Positivo, 2012.